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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

MEMÓRIAS DE QUEM AMA A LAPA!

As pessoas que me honram com as suas presenças neste blog peço licença para abrir este espaço para um canti
nho do Rio de janeiro que tem estreita ligação com Portugal, a Lapa com o seu aqueduto.

Esta abertura é em virtude de uma crônica que li sobre a Lapa, premiada em 1º lugar no II CONCURSO LITERÁRIO LERUERJ, cujo lançamento aconteceu ontem no Departamento de Letras daquela Universidade e o seu autor me autorizou a publicar.

Abaixo tem o texto da publicação, espero que todos se interessem e gostem, história singela  de um jovem que conseguiu transpor a barreira existente  entre um longinquo suburbio do  Rio e a inebriante Lapa de ontem, de hoje e de sempre...

Deliciem-se com este passeio pelo underground do  Rio de janeiro das décadas de 80/90





 VOCÊ SABE O QUE É A LAPA, MEU FILHO???

                                                            *Deusdemóstenes de Antuérpia

            Foi por volta de 1990, se não me falha a memória, que os amigos mais velhos da vizinhança me avisaram do show do Sepultura no Circo Voador. A banda estava retornando da sua primeira turnê europeia/americana, divulgando o álbum Beneath The Remains. Um sonho a ser realizado para um jovem metalhead campo-grandense de quinze anos incompletos. Só que tamanha aventura esbarrava num obstáculo aparentemente intransponível: a permissão familiar. Súplicas à mãe esgotadas, esta resolveu assumir sua porção Pôncio Pilatus e lavou as mãos:
            Liga para o seu pai. Ele é quem resolve.
            Meu pai, falando do escritório, com voz inflexível e algo colérica, lança a questão tonitruante:
            VOCÊ SABE O QUE É A LAPA, MEU FILHO???
            Respondi, recalcitrante e intimidado por dentro, mas tentando aparentar a voz firme e decidida para um adolescente que mal havia transposto os limites do próprio bairro de origem, não a pergunta de meu pai, mas uma justificativa desesperada, talvez a última cartada de que dispunha, a última bala na agulha:
            Mas eu vou com a galera daqui da rua, pai, são todos maiores e tão acostumados.
            ENTÃO VOCÊ ESTÁ POR SUA PRÓPRIA CONTA!!! Sentenciou meu pai, resignando-se a contragosto.
            E lá fomos nós, encarando uma composição oriunda de Santa Cruz com destino à gare Dom Pedro II, para dali empreender uma caminhada de aproximadamente vinte minutos rumo aos Arcos da Lapa (estratégia de economia de alguns trocados para a bebida). Tudo era novidade, desde as figuras excêntricas vestindo roupas pretas, com os rostos pintados e cruzes invertidas penduradas no pescoço, na calçada do boteco Arco-íris, até elementos da plateia se dependurando do mezanino ao palco nas estruturas de vigas e vergalhões que sustentavam a lona do lendário espaço cultural, e se lançando ao público em desenfreado stage diving, por vezes levando-me a confundir quem era da banda com quem era da plateia. Nada mal para uma primeira vez, meu début lapeano, do qual retornei para casa já pela manhã, sujo, suado e bêbado.
            Dali por diante, minha vivência no underground carioca se intensificou, dividindo-me entre o point Sorvetão, um “pé-imundo” (porque chamar aquilo de pé-sujo seria demasiado indulgente) situado no que hoje é conhecido como o Baixo-Méier, Caverna II aos domingos na Lauro Müller, ao lado do shopping Rio Sul em Botafogo, a então novidade Garage Art Cult na Rua Ceará, Praça da Bandeira, e o já consagrado Circo Voador, com algumas incursões extrarrotineiras aqui e ali, como o Largo da Igreja de Santa Cecília em Bangu ou o hoje finado Barroquinho em Icaraí, Niterói, que cedeu espaço a um “bar de playboy” na atualidade. Vez por outra éramos agraciados com grandes shows de ícones da música pesada no Maracanãzinho, a exemplo de Venom, Exciter, Motörhead, Metallica e Iron Maiden, e o Black Sabbath no Canecão, ou grandes festivais como o Rock in Rio 2 no Maracanã e Hollywood Rock na Praça da Apoteose, cujas bandas do cast tiveram a magnanimidade de abençoar seus fãs tupiniquins com memoráveis turnês naqueles difíceis tempos para quem curtia Heavy Metal no Brasil.
            Comprar discos também era uma via-crúcis, especialmente para um morador da Zona Oeste, em tempos nos quais o transporte coletivo era ainda mais precário do que hoje em dia, se é que tal feito seja possível. Era uma verdadeira Odisseia atravessar a cidade, transitando por lojas como Point Rock em Copacabana, Hard’n’Heavy no Flamengo, Subsom e Headbanger na Tijuca, Sempre Música no Catete, e os sebos de discos na Uruguaiana que, infelizmente, hoje não existem mais , em busca das últimas novidades lançadas em vinil, que conhecíamos por meio do programa Guitarras, da extinta rádio Fluminense FM, “A Maldita”. Bons e sofridos tempos...
            A minha relação com a Lapa, porém, nunca se desfez. E não era essa Lapa dos gringos e das boates e bares “arrumadinhos” que hoje aparece no caderno de entretenimento do RJTV. Era a Lapa bandida, marginal, soturna, a Lapa dos assaltantes, travestis, prostitutas e traficantes que já não trazia o glamour das primeiras décadas do século XX de personagens lendários como Madame Satã , a Lapa dos cabarés, dos malandros, boêmios, capoeiras e compositores. Era a Lapa na qual me deparei, ao procurar por um botequim com cerveja mais barata na Mem de Sá a fim de me aquecer para um show da Dorsal Atlântica e Ratos de Porão no Circo, com uma cena inusitada: em frente a uma birosca de ambiente nada familiar, uma joaninha da PM, e, na porta, um soldado apontando uma macaquinha para o teto do dito estabelecimento, de cujo forro antigo de lambri pendia uma perna. Sim, uma PERNA humana! Ao perguntar ao atendente do balcão o que se passava, este me informou que um assaltante que acabara de praticar roubo nas imediações, sendo perseguido pela polícia, correu para dentro do bar, ao que o atendente mostrou seu tresoitão na cintura e lhe disse que “não pulasse ali senão levaria bala”, obrigando o azarado meliante em fuga a se esconder dentro do depósito no sótão do estabelecimento, onde, atrapalhado, acabou por fazer um buraco no forro com o peso do próprio corpo, tornando-se presa fácil para seus perseguidores. Nada mais típico daquela Lapa.
            Os anos se passaram, a Lapa bandida foi revitalizada e transmutou-se em Lapa turística e de lazer, cultura e entretenimento, e eu continuei minhas andanças por aquele bairro tão presente em minha vida. Mesmo me mudando para Copacabana, já nos anos 2000, aquele lugar continuou a ser o meu quintal, agora já bem mais próximo do que antes. E, como se não bastasse a recente proximidade geográfica, ainda arrumei uma bela namorada capixaba que viveu boa parte da vida em Niterói e, ao me conhecer, mudou-se para o Bairro de Fátima. Não satisfeita, mudou-se para ainda mais perto dos Arcos, na Mem de Sá, onde passo os momentos mais loucos e divertidos dos finais de semana. Companhia melhor, impossível.
            Hoje, se perguntado novamente por meu pai, seguramente eu poderia responder com firmeza e decisão à pergunta não respondida de vinte e quatro anos atrás:
Sim, pai. HOJE eu sei o que é a Lapa!


* Deusdemóstenes de Antuérpia é  carioca, rubro-negro, nascido em Campo Grande e morador de Copacabana. Apreciador de Heavy Metal e cerveja gelada, boêmio, músico, professor e historiador, mas também ama literatura brasileira, russa, inglesa e de língua espanhola. Arrisca-se a escrever de vez em quando, desde que o pano de fundo seja sua amada cidade (embora não se considere lá muito talentoso).

Um comentário:

  1. Fato inédito, postar texto alheio e aparentemente fora do contexto do blog.

    Acontece que a temática do texto sendo a LAPA me direcionou de corpo e alma a Lisboa, uma e outra são corpo e alma, unha e dente. Ambas são apaixonantes e Campo Grande, sefazfavoire, é minha eterna paixão.

    Prometi ao autor, avisa-lo quando o texto chegar a 100 visualização e dar-lhes os parabéns ao alcançar mil visitas.

    Divulgue para os amigos, assim minha missão chegará mais cedo..

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